Por Eduardo Andrade de Carvalho, Fundador da Moby, para Veja SP

O muro é o principal inimigo da cidade. A cidade é um espaço para encontros – e o muro é o símbolo da divisão. Quer dizer: ele é divisão.

É verdade que, mesmo com muros, as pessoas podem continuar se encontrando na cidade. Mas não é apenas esse encontro combinado, calculado, que faz com que a vida na cidade compense. É também – e talvez principalmente – o encontro que acontece por acaso que nos diverte e nos civiliza.

Os muros dos grandes condomínios de São Paulo enclausuram grande parte da cidade em guetos, privando seus moradores do melhor que a experiência urbana pode oferecer: o encontro aleatório, casual, que acontece quando, por exemplo, duas pessoas se conhecem porque seus cachorros se simpatizam na calçada; quando alguém comenta sobre o tempo no balcão da padaria; quando um curioso se junta a um grupo que joga xadrez em mesa pública, ao ar livre. O grande condomínio murado suga essa energia do espaço urbano. As calçadas no seu entorno normalmente são desertas. Apesar de dentro da cidade, a rotina dos seus moradores está limitada a um estilo de subúrbio.

Muralha em rua no bairro do Ipiranga Raul Juste Lores/Veja SP

Com uma estrutura com dezenas de itens de lazer muitas vezes pouco aproveitados, grande parte dos condomínios-clube de São Paulo está inchada. Enquanto isso, a vida em seu entorno é raquítica. Meu sonho é que, para corrigir essa anomalia, a legislação de São Paulo estimule uma pequena cirurgia: que esses condomínios possam vender ou alugar lotes subutilizados dentro dos seus condomínios. O que hoje é um espaço sem uso, excludente, poderia com o tempo ter uma vida mais variada, mais interessante: com comércios e cafés que atendam os próprios moradores desses condomínios; com residências a preços mais baratos do que a média atual do bairro em cima dessas mesmas lojas e cafés.

O próprio condomínio poderia definir as regras para ocupação desses lotes: altura permitida das edificações, tipos de uso, etc., o que evitaria que a consequência seja negativa para os seus moradores. É para ser positiva. Não é para ser também uma obrigação; seria apenas um estímulo, uma possibilidade. Em alguns lugares, por motivos diferentes, talvez não haja opção, e muros continuarão existindo. Mas não podemos permitir que eles continuem existindo onde há alternativas melhores: quando, mantendo a segurança dos seus moradores, seja viável uma solução que ofereça a eles conveniência, lazer, a renda desses lotes e – quem sabe? – uma possível valorização dos próprios imóveis desses condomínios. A cidade ganharia muito.

Quarteirões inteiros que são hoje perigosos e monótonos poderiam ser mais divertidos e mais seguros. Um café poderia ser ponto de encontro dos moradores, com mesas a céu aberto; uma pizzaria poderia atender a região; o chaveiro poderia montar um ponto mais perto dos seus clientes; um pet shop poderia tosar os cachorros do quarteirão; e esses serviços poderiam ser desfrutados a pé por quem mora no entorno. Um empreendedor local poderia fazer um predinho de dois andares, com loja embaixo, com pequenos apartamentos ou escritórios para locação; alguém poderia fazer uma casa com portas e janelas para a rua. Essa nova oferta imobiliária – ao mesmo tempo que deve valorizar os apartamentos dos condomínios que antes eram murados – provavelmente diminuiria o preço de locação para esse novo comércio.

A cidade moderna está passando hoje por um dos maiores desafios da sua história. Escrevo sobre a possibilidade de um novo café com mesas a céu aberto enquanto muitos comércios estão fechando para sempre. Disse que é um sonho que mais pessoas diferentes possam se encontrar por acaso num momento em que famílias e amigos estão há meses separados – e sem perspectivas claras de quando voltarão a conviver. Não sabemos qual será a consequência do que está acontecendo agora para o futuro da cidade. Não será pequena. Mas, seja qual for, é melhor que seja um futuro com menos muros – porque a alternativa é passarmos a eternidade num subúrbio em encontros pelo Zoom.
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